Existe a cura na hepatite B?

Nestes dias de comemoração na hepatite C quando a ciência comprovou que a cura e possível, foi muito oportuna a discussão sobre a cura na hepatite B que aconteceu durante o XI Workshop de Hepatites Virais de Pernambuco, realizado semana passada em Porto Galinhas.

A discussão sobre se também pode ser possível se falar em “cura“ na hepatite B foi acalorada, emocionante, com pontos de vista diferentes em cada situação especifica do estagio da doença. Afortunadamente estive presente nesta discussão que envolveu grandes autoridades no acompanhamento e tratamento da hepatite B.

Existem muitas diferenças entre as hepatites B e C, assim, as evidencias cientificas de uma hepatite não podem ser generalizadas para as outras hepatites. E bom lembrar que as hepatites virais são ocasionadas por vírus totalmente diferentes, com formas de transmissão, progressão, conseqüências e tratamento totalmente diferentes. Podemos afirmar que são doenças diferentes que somente possuem em comum a característica de atacar o fígado. Os pesquisadores convencionaram que cada nova hepatite ocasionada por vírus e com característica de ser transmitida pelo sangue seria identificada por uma letra.

Assim, ao se falar das hepatites A, B, C, D, E, G ou F, cada uma delas tem suas próprias características especificas, não podendo se aplicar o conhecimento de uma delas nas outras hepatites.

HEPATITE B – TRANSMISSÃO E VACINAÇÃO

A hepatite B foi a segunda hepatite viral descoberta e, apesar do tempo transcorrido ainda existem muitas lagunas no seu conhecimento e na sua forma de atuar no organismo.

Em relação ao contagio a situação e muito estranha. Uma criança nascida de mãe contaminada ou se a criança se infecta nos primeiros anos de vida vai ser um doente crônico, nenhuma criança consegue a cura espontânea nos primeiros seis meses apos o contagio. Um adolescente já apresenta uma melhor reação e entre 20 e 40% deles conseguem a eliminação espontânea do vírus. Quando o contagio acontece em um adulto, entre 90 e 95% ficam livres da doença de forma espontânea.

Vemos então que todas as crianças ficarão doentes crônicos, que entre 60 e 80% dos adolescentes ficarão doentes e que somente entre 5 e 10% dos adultos ficarão doentes apos o contagio. E por esse motivo que toda criança deve obrigatoriamente ser vacinada nas primeiras horas apos o parto, já que se ela nascer contaminada a vacina quando administrada combinada com imunoglobulina atua de forma terapêutica, curando a doença.

A hepatite B e transmitida por sangue de uma pessoa infectada ou pela relação sexual. A transmissão sexual e 100 vezes mais fácil de acontecer que a transmissão sexual da AIDS.

A vacina e altamente eficaz se encontrando disponível gratuitamente para pessoas ate 19 anos de vida em qualquer posto de saúde (no Brasil), porem, a cobertura vacinal deixa muito a desejar. Poucos jovens completam as três doses da vacina, necessárias para adquirir a imunidade. Faltam campanhas de incentivo a vacinação e falta um seguimento de quem tomou a primeira dose, para lembrá-lo das seguintes.

HEPATITE B – FASES DA DOENÇA

Um individuo infectado com a hepatite B pode se encontrar na fase aguda, na fase crônica sem replicação viral, na fase crônica com replicação, pode ter uma infecção oculta, pode ter eliminado o vírus de forma espontânea ou pode ter eliminado o vírus mediante tratamento antiviral.

Cada uma dessas fases vai precisar de um acompanhamento diferente. E importante destacar que somente médicos experientes saberão identificar e tratar cada caso especifico.

Existem diversos exames de sangue para identificar cada fase, mas o mais importante e o HBV DNA, comumente chamado de carga viral para hepatite B. Lamentavelmente o SUS não disponibiliza este exame no sistema publico do Brasil.

Na hepatite B a carga viral, tal qual na AIDS, e de extrema importância para se avaliar a gravidade da doença. Sem o acompanhamento da carga viral e impossível se determinar a real necessidade de tratamento e o seu acompanhamento, já que somente com exames de carga viral será possível se saber se o vírus esta criando resistência aos medicamentos.

A CURA DA HEPATITE B

Resumidamente, no final da discussão sobre se poderia se falar em cura na hepatite B, os participantes na sua maioria concordam que no caso de eliminação espontânea do vírus na fase aguda, isto e, nos seis primeiros meses apos o contagio, poderia, sim, se falar em cura da hepatite B.

Já nos casos em que a doença, passados seis meses do contagio, permanece no organismo, tornando-se crônica, por mais que existam níveis indetectáveis de vírus, seja por tratamento ou por reação do próprio organismo, não e conveniente, por enquanto, se afirmar que existe a cura. Ainda e pequeno o conhecimento de como funciona a chamada fase oculta e por quais motivos ela pode ocasionar “flares“ (exarcebacões) com o reaparecimento do vírus, em alguns casos com altas cargas virais. Pacientes com doença crônica devem permanecer com acompanhamento medico permanente.

COMENTÁRIO FINAL

Fica aqui um apelo geral, para médicos, pacientes, sociedades medicas, gestores públicos, políticos, etc., para que todos se mobilizem no sentido de sensibilizar o ministério da saúde a disponibilizar o exame de carga viral para hepatite B, o HBV DNA e para atualizar de forma urgente o jurássico protocolo de tratamento, disponibilizando os novos medicamentos já autorizados para comercialização. E ilógico que doentes com recursos possam comprar o medicamento nas farmácias e negar esses tratamentos a quem depende do SUS.

Este artigo foi redigido com comentários e interpretação pessoal de seu autor, tomando como base a seguinte fonte:
Discussão no XI Workshop de Hepatites Virais de Pernambuco.

Carlos Varaldo
Grupo Otimismo